A epidemia de "crupe" que assolou Belém (PB) nos anos 1970
Contextualizando aquele período, o município de Belém tinha
cerca de 12 mil habitantes e era administrado pelo prefeito Manoel Xavier de
Carvalho (MDB), que se encontrava em seu terceiro ano de mandato, com término
previsto para 1972. No plano nacional, o Brasil vivia sob uma ditadura militar
marcada pelo autoritarismo e pela repressão, e o presidente Emílio Garrastazu
Médici tinha acabado de nomear o novo governador da Paraíba, Ernani Ayres
Sátyro (Arena), com quem Manoel Xavier iria se encontrar para tratar da
epidemia de crupe e outros assuntos, segundo a notícia do referido jornal.
O Diário de Pernambuco noticiou o caso da epidemia nos
seguintes termos:
“EPIDEMIA. Chegou a esta capital [João Pessoa] o prefeito de
Belém de Caiçara, a fim de entender-se com o secretário de Saúde, para que
determine a ida de uma equipe para vacinar a população contra crupe. O mal vem
assolando aquela comunidade, tendo inclusive, atingido fatalmente mais de vinte
crianças.”
A crupe, atualmente conhecida como difteria, é uma doença contagiosa causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae, que atinge o sistema respiratório, ocorre principalmente na infância e pode ser agravada por condições sanitárias precárias, má nutrição infantil e baixa cobertura vacinal. Esses fatores contribuíram para a disseminação da epidemia em Belém naquele período, motivando a ida do prefeito Xavier ao governo estadual em busca de vacinas. Mesmo já tendo vacina disponível para combater a doença, a oferta era limitada e ainda não existia o Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1988 com a promulgação da nova Constituição.
O jornal pernambucano também informou que o então prefeito de
Belém entrou em contato, na cidade de Guarabira, com a equipe do antigo Serviço
Especial de Saúde Pública (SESP), para tratar da epidemia, antes de seguir até
o governador Ernani Sátyro, empossado apenas dez dias antes da publicação da
matéria:
“[Manoel Xavier] Declarou que, ao passar pela cidade de
Guarabira, onde se acha uma unidade do SESP, manteve contatos com as
autoridades sanitárias, solicitando atenção para o grave problema que ameaça
aquêle município do Brejo paraibano. O sr. Manoel Xavier deverá avistar-se com
o governador do Estado, amanhã, para tratar de outros assuntos ligados ao
município que dirige.”
“CONVÊNIO. Paralelamente a essas providências, o sr. Manoel
Xavier pretende iniciar conversações para firmar um convênio com a Clínica São
Camilo, desta capital, visando a proporcionar assistência aos servidores de
Belém de Caiçara. Um dos dirigentes da instituição, médico Carlos Branco, está
estudando um plano capaz de concretizar a pretensão do edil.”
Não encontramos registros
oficiais sobre se Manoel Xavier conseguiu se reunir com o governador Ernani
Sátyro ou se obteve vacinas para a população belenense. O fato é que a epidemia
de crupe, que assolou Belém na década de 1970, evidencia, ainda nos dias
atuais, a importância da vacinação para prevenir diversas doenças, algo que a
população daquele período não tinha acesso.
Curiosidade
O nome “crupe” tem origem no inglês “croup”, que significa literalmente “rugido” ou “grito”, em referência ao som característico da tosse dos doentes: tosse rouca ou em latido. Daí o termo popular ainda hoje utilizado de "tosse de cachorro".
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Mais informações sobre a difteria (ou crupe):
Difteria (ou crupe) é uma doença respiratória infectocontagiosa, causada pelo bacilo Corynebacterium diphtheriae que se instala nas amídalas, faringe, laringe, nariz e, em alguns casos, nas mucosas e na pele.
A transmissão ocorre pelo contato direto com a pessoa doente ou com portadores assintomáticos da bactéria, através de gotículas eliminadas pela tosse, pelo espirro e ao falar, ou pelo contato com as lesões cutâneas.
A enfermidade é mais prevalente na infância. Em geral, se manifesta depois de resfriados e gripes nas crianças que não foram imunizadas. No entanto, também pode acometer adultos que não foram vacinados.
Receber a vacina tríplice bacteriana (DTP) contra a difteria, tétano e pertussis (coqueluche) é fundamental para a prevenção das três enfermidades. Essa faz parte do calendário oficial de vacinação e deve ser administrada aos dois, quatro e seis meses de vida e depois uma dose de reforço entre os 14 e os 18 meses e outra entre os quatro e os seis anos da criança. A DTP não confere imunização definitiva. Por isso, a vacinação deve ser repetida a cada dez anos.
Fonte: Portal Drauzio Varella.




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