A epidemia de "crupe" que assolou Belém (PB) nos anos 1970

Foto: Crianças desfilando na cidade de Belém, em 1969. Fonte: Página Memórias da Minha Cidade.

Em 24 de março de 1971, o jornal Diário de Pernambuco repercutia na edição 68, no 1° Caderno, página 11, a notícia vinda da sucursal, em João Pessoa, sobre uma epidemia de crupe, termo utilizado à época para se referir à difteria, que, segundo o periódico, assolava o município de Belém, ainda conhecido como Belém de Caiçara.

Contextualizando aquele período, o município de Belém tinha cerca de 12 mil habitantes e era administrado pelo prefeito Manoel Xavier de Carvalho (MDB), que se encontrava em seu terceiro ano de mandato, com término previsto para 1972. No plano nacional, o Brasil vivia sob uma ditadura militar marcada pelo autoritarismo e pela repressão, e o presidente Emílio Garrastazu Médici tinha acabado de nomear o novo governador da Paraíba, Ernani Ayres Sátyro (Arena), com quem Manoel Xavier iria se encontrar para tratar da epidemia de crupe e outros assuntos, segundo a notícia do referido jornal.

Foto: Manoel Xavier de Carvalho. Fonte: Página Memórias da Minha Cidade.

O Diário de Pernambuco noticiou o caso da epidemia nos seguintes termos:

“EPIDEMIA. Chegou a esta capital [João Pessoa] o prefeito de Belém de Caiçara, a fim de entender-se com o secretário de Saúde, para que determine a ida de uma equipe para vacinar a população contra crupe. O mal vem assolando aquela comunidade, tendo inclusive, atingido fatalmente mais de vinte crianças.”

A crupe, atualmente conhecida como difteria, é uma doença contagiosa causada pela bactéria Corynebacterium diphtheriae, que atinge o sistema respiratório, ocorre principalmente na infância e pode ser agravada por condições sanitárias precárias, má nutrição infantil e baixa cobertura vacinal. Esses fatores contribuíram para a disseminação da epidemia em Belém naquele período, motivando a ida do prefeito Xavier ao governo estadual em busca de vacinas. Mesmo já tendo vacina disponível para combater a doença, a oferta era limitada e ainda não existia o Sistema Único de Saúde (SUS), criado em 1988 com a promulgação da nova Constituição.

Recorte do jornal Diário de Pernambuco sobre a epidemia em Belém (PB). Fonte: Hemeroteca Digital.

O jornal pernambucano também informou que o então prefeito de Belém entrou em contato, na cidade de Guarabira, com a equipe do antigo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), para tratar da epidemia, antes de seguir até o governador Ernani Sátyro, empossado apenas dez dias antes da publicação da matéria:

“[Manoel Xavier] Declarou que, ao passar pela cidade de Guarabira, onde se acha uma unidade do SESP, manteve contatos com as autoridades sanitárias, solicitando atenção para o grave problema que ameaça aquêle município do Brejo paraibano. O sr. Manoel Xavier deverá avistar-se com o governador do Estado, amanhã, para tratar de outros assuntos ligados ao município que dirige.”

Foto: Governador Ernani Sátyro. Fonte: Fundação Ernani Sátyro.

O Diário de Pernambuco concluiu a nota informativa destacando outro pleito do gestor municipal na área da saúde, por meio de um possível convênio com uma clínica privada em João Pessoa, dessa vez para atender os servidores municipais:

“CONVÊNIO. Paralelamente a essas providências, o sr. Manoel Xavier pretende iniciar conversações para firmar um convênio com a Clínica São Camilo, desta capital, visando a proporcionar assistência aos servidores de Belém de Caiçara. Um dos dirigentes da instituição, médico Carlos Branco, está estudando um plano capaz de concretizar a pretensão do edil.”

Não encontramos registros oficiais sobre se Manoel Xavier conseguiu se reunir com o governador Ernani Sátyro ou se obteve vacinas para a população belenense. O fato é que a epidemia de crupe, que assolou Belém na década de 1970, evidencia, ainda nos dias atuais, a importância da vacinação para prevenir diversas doenças, algo que a população daquele período não tinha acesso.

Curiosidade

O nome “crupe” tem origem no inglês “croup”, que significa literalmente “rugido” ou “grito”, em referência ao som característico da tosse dos doentes: tosse rouca ou em latido. Daí o termo popular ainda hoje utilizado de "tosse de cachorro".

***

Mais informações sobre a difteria (ou crupe):

Difteria (ou crupe) é uma doença respiratória infectocontagiosa, causada pelo bacilo Corynebacterium diphtheriae que se instala nas amídalas, faringe, laringe, nariz e, em alguns casos, nas mucosas e na pele.

A transmissão ocorre pelo contato direto com a pessoa doente ou com portadores assintomáticos da bactéria, através de gotículas eliminadas pela tosse, pelo espirro e ao falar, ou pelo contato com as lesões cutâneas.

A enfermidade é mais prevalente na infância. Em geral, se manifesta depois de resfriados e gripes nas crianças que não foram imunizadas. No entanto, também pode acometer adultos que não foram vacinados.

Receber a vacina tríplice bacteriana (DTP) contra a difteria, tétano e pertussis (coqueluche) é fundamental para a prevenção das três enfermidades. Essa faz parte do calendário oficial de vacinação e deve ser administrada aos dois, quatro e seis meses de vida e depois uma dose de reforço entre os 14 e os 18 meses e outra entre os quatro e os seis anos da criança. A DTP não confere imunização definitiva. Por isso, a vacinação deve ser repetida a cada dez anos.

Fonte: Portal Drauzio Varella.

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